Conversa com Rui Ramalhete

Publicado em 31 de Julho de 2011 |

Hoje voltamos às conversas com utilizadores de veículos eléctricos. Rui Ramalhete foi um dos primeiros a decidir comprar o Nissan Leaf em Portugal. Porque tem perfil de utilização fora do comum e porque idealizou e implementou um fórum sobre o Nissan Leaf, onde partilha, juntamente com outros utilizadores, todas as experiências e truques sobre o carro, foi uma excelente escolha para mais esta entrevista. Ficam aqui também algumas críticas para algumas entidades melhorarem os seus serviços. Espero que gostem…

VEPT: Quando começou a formar-se a ideia para comprar um Nissan Leaf?

Rui Ramalhete: A ideia de comprar um VE começou com a aquisição do meu último veículo de combustão interna, um hatchback Renault Megane II 1.5 dCi e inicialmente estava inclinado para adquirir o Renault Fluence ZE.

O Renault Fluence ZE acabou por ser uma desilusão por 4 razões fundamentais:
1ª – Aumento em 13 cms no seu já longo comprimento;
2ª – Apesar do aumento de comprimento possuir apenas 300 litros de porta bagagens;
3ª – A bateria está toda debaixo do banco traseiro criando desequilíbrios na estabilidade do carro;
4ª – A razão principal foi a manutenção do tablier basicamente igual ao da versão de CI o que eu acho ser uma falta de arrojo enorme por parte da Renault a que eu não estava habituado…uma desilusão completa comparado com o Nissan Leaf.

VEPT: O Leaf não foi portanto a primeira escolha, mas achas que foi mais racional ou emotiva?

Rui Ramalhete: Completamente racional. Se houve alguma emotividade ela existiu apenas devido ao abuso contínuo por parte dos preços praticados pelas petrolíferas.

VEPT: Foi difícil esperar este tempo todo? Quanto tempo passou entre a encomenda e a entrega?

Rui Ramalhete: Muito difícil esperar pela entrega pois aguardei desde o dia 30 de Julho de 2010 até ao dia 09 de Junho de 2011 ainda por cima fui ultrapassado por outros clientes do Nissan Leaf por terem existido problemas com o concessionário escolhido que provocou um atraso ainda maior na entrega.

VEPT: Eu gosto particularmente do ambiente mais futurista do Leaf face aos restantes veículos eléctricos do mercado. Em que é que achas que o Leaf se destaca de outros carros eléctricos no mercado?

Rui Ramalhete: Esteticamente é uma questão de gosto pessoal, reconheço que me custou a habituar à forma dos faróis dianteiros, mas em contrapartida adoro a visão da frente do carro visto lateralmente e duma forma geral de todo o carro. Mas é por dentro que a minha admiração pelo carro é maior nomeadamente, como já referi aquele tablier que me parece muito bem conseguido com todas as informações e acessos em termos de se chegar com a mão muito bem estudados. O sistema central também está muito bem conseguido. Penso que daqui a uns anos e apesar de velocidade com que as coisas evoluem, este conjunto tablier e sistema de navegação central estarão ainda muito em voga e eu espero ter a oportunidade de poder substituir as células da minha bateria principal do carro daqui a alguns anos e aumentar-lhe assim a autonomia do mesmo (fala-se em 320 kms).

VEPT: E com seguro e empréstimos, alguma surpresa? Por acaso perguntaram qual a cilindrada do carro?

Rui Ramalhete: Poupei desde 2005 para pagar a pronto tendo abdicado de muito coisa para mim e para a minha família para conseguir tornar realidade este sonho e estou muito grato nomeadamente à minha mulher o ter tido paciência e acreditado que valia a pena (efectivamente ela está totalmente convertida ao LEAF).

Em relação ao seguro mantive a minha companhia e de facto quando, com alguns meses de antecedência, perguntei quanto me poderia custar o seguro do LEAF senti algum “bloqueio” e dúvidas sobre de que tipo de veículo estava a falar, nomeadamente qual em relação á cilindrada do mesmo. A título de curiosidade fiquei a pagar cerca de menos 5,00 € em relação ao que pagava pelo veículo de retoma.

VEPT: É verdade que o estado ainda não pagou o incentivo?

Rui Ramalhete: Infelizmente é verdade mas ainda considero o Estado como uma entidade de bem e que irá cumprir com os compromissos assumidos. Já em relação ao prazo previsto de 5 dias úteis infelizmente esses já estão mais do que ultrapassados. Tendo tido indicação por parte do extinto Gabinete de Apoio à Mobilidade Eléctrica em Portugal (GAMEP) de que tudo se encontrava desbloqueado por parte do IMTT conto que nos próximos meses esse reembolso se venha a processar pois o Governo agora anda mais preocupado com outras questões além de estarmos em período de férias. Conto ter a situação resolvida até ao final do ano. Caso tal não se verifique teremos de começar a pensar em tomarmos algumas acções complementares no sentido de sermos ressarcidos daquilo a que temos, por lei, direito.

VEPT: Quais foram as dificuldades ou problemas na utilização do Leaf até ao momento? Explica-nos um pouco qual o teu percurso diário e já agora que tipo de utilização ao fim-de-semana.

Rui Ramalhete: Muito poucas. Eu trabalho em Évora mas vivo em Oeiras e esses 145 kms de porta a porta tem sido feitos com muita qualidade e o prazer de condução do carro é imenso. Obviamente e como já tenho dito imensas vezes o LEAF não é um carro para se levar para auto-estrada e por isso faço essa minha viagem por estradas nacionais e é muito agradável pois a velocidades de 80 a 95 km/h torna-se muito prático e económico. Por não querer levar a bateria muito ao limite carrego uma hora no Fórum Montijo.

O meu percurso usual é o acima referido entre Évora e Oeiras e vice-versa. Não é feito diariamente porque seria demais mas por vezes venho a meio da semana a casa. Durante o fim-de-semana tenho tido o hábito de fazer reconhecimentos aos postos da Mobi-e da região onde tenho detectado as deficiências já referidas e visito familiares e outras viagens que basicamente são as mesmas que efectuava quando utilizava o Megane. Tem sido muito agradável andar por áreas que de outra forma não utilizaria em busca dos postos de carga da Mobi-e.

Os maiores problemas que tenho tido têm sido com alguns postos da Mobi-E que tem indicação de existirem mas chegados ao local muito estão pura e simplesmente desligados o que se torna stressante e não motiva a serem feitas viagens mais longas por não termos a certeza de que os postos estão operacionais. Em resumo a Mobi-E tem de manter continuamente actualizados online os postos que se encontram ok e os que se encontram inactivos ou com problemas e é por isso que têm uma central em Gaia para supervisionar isso mesmo. É certo que por ser gratuito ainda não temos muita razão de queixa mas era bom que tal fosse sendo resolvido.

VEPT: E em casa, fizeste algum tipo de instalação especial?

Rui Ramalhete: Instalei o posto de carga da EFACEC porque tendo apenas um lugar de estacionamento na garagem colectiva o condomínio obrigava a que a instalação oferecesse todas as garantias e eu em termos de segurança não gosto de arriscar e por isso fiz esse investimento complementar que tem a vantagem de não me desgastar ainda mais o meu cabo de carregamento que vem com o carro.

VEPT: Também sentes algum tipo de ansiedade da autonomia?

Rui Ramalhete: Ao fim de mais de 5000 kms a conduzir o LEAF consigo ter uma ideia muito precisa da sua autonomia e com algum planeamento não tenho sofrido de grande ansiedade de autonomia. Fico com pena é de a Mobi-e estar um pouco lenta na implementação dos postos de carga rápida (o qual me foi assegurado que iria acontecer muito rapidamente por alto representante da Mobi-e) pois é muito difícil para não dizer impossível ir ao Algarve uma vez que não há qualquer posto de carga rápida nesses percurso, o que é uma pena para já

VEPT: Já ficaste próximo de ficar parado? Qual o máximo de km que já percorreste num dia?

Rui Ramalhete: Nunca fiquei próximo da ficar parado, o mínimo de autonomia com que fiquei foi 28 km e duas barras de energia. O máximo de kms que fiz num dia foram 300 kms Oeiras – Évora e Évora – Oeiras no mesmo dia.

VEPT: O sistema de telemática Carwings é mesmo uma ajuda? Utilizas algum smartphone para ajudar na localização de pontos de carregamento ou para complementar a utilização do sistema de origem?

Rui Ramalhete: É interessante mas não é uma ajuda imprescindível ainda por cima tendo a Mobi-e disponibilizado uma aplicação para utilização no IPhone e smartphones Android. Utilizo um smartphone Nexus S Android e utilizo-o com frequência para me ajudar a complementar a utilização do sistema de origem apesar do site da Mobi-e estar ele também muito desactualizado. Só este fim-de-semana descobri mais dois postos de carga não referenciados em nenhum dos sistemas (um em Sintra e outro em Colares).

VEPT: E sobre o Mobi-e, fala-nos um pouco de como é utilizar este sistema e a “nossa” rede de carregamento.

Rui Ramalhete: Está muito “verdinha”. Parecem-me bem intencionados e com vontade de servir bem mas tem alguns momentos de autêntico “amadorismo”. Eu tenho tentado colaborar com eles enviando informações sobre o estado dos postos e outras situações mas tenho tido muito pouco “feedback” deles. Tenho esperança que esta situação venha a melhorar com o tempo.

VEPT: É normal veres os lugares do Mobi-e ocupados por outras viaturas “convencionais”? e postos vandalizados ou ainda sem funcionarem?

Rui Ramalhete: 80% das vezes que chego ao um posto de carga da Mobi-e esse espaço está ocupado por veículos de motor de combustão interna e penso que as Câmaras Municipais têm alguma responsabilidade nessa situação pois se todas fizessem como em Torres Vedras em que os locais de estacionamento estão pintados no chão com símbolos para VE’s incentivavam muito mais os outros veículos a evitarem estacionar nesses locais. De qualquer forma ainda falta muito trabalho na área do esclarecimento e temos de ser pedagógicos para que a comunidade VE não seja vista como um “incómodo” para as outras pessoas. Vandalizados descobri um em Évora e parece que em Aveiro foi detectado outro. Não tive conhecimento de mais nenhum. Sem funcionarem muitos, infelizmente, nomeadamente por estarem desligados (parece que Santarém bate o recorde dos postos desligados).

VEPT: No Leaf, descobriste alguma particularidade ou gadget que não estivesses à espera?

Rui Ramalhete: Existem uns truques referidos no fórum americano mynissanleaf que ensina a entrar em ecrãs escondidos do sistema onde por exemplo podemos ver a velocidade real a que circulamos e a altitude ente outras informações.

VEPT: És também o criador do fórum NissanLeafPt.com. Fala-nos um pouco de como surgiu a ideia e como tem sido a partilha de informação entre os utilizadores do Leaf.

Rui Ramalhete: A criação do fórum nasceu da necessidade de partilhar expectativas e informações de cariz nacional uma vez que os fóruns estrangeiros sobre o Leaf não nos podiam dar essas informações. No dia 4 de Janeiro de 2011, cansado dessa situação calhei a comentar com um Leafista do Norte o mjr que seria interessante existir um fórum nacional sobre o Leaf uma vez que a página do Nissan Leaf do Facebook nacional não estava à altura das nossas expectativas. E foi assim que nasceu o fórum, o mjr como especialista na criação do mesmo (coisa que eu tinha dificuldades técnicas em criar) e eu fiquei com a responsabilidade primária de arranjar “assuntos” para discutir no fórum. Acho que a partilha tem sido um sucesso, temo-nos divertido imenso e aprendido muito uns com os outros. Penso termos atingido o nível desejado do fórum se auto alimentar sem a minha presença continua no mesmo o que é uma grande satisfação. De realçar que não existem quaisquer valores financeiros (ainda) movimentados neste fórum, sendo a sua existência devida à dedicação de um punhado de interessados neste veículo de excepção que é o Nissan Leaf.

VEPT: O fórum existe há quanto tempo e quantos utilizadores já possuidores do Leaf tem?

Rui Ramalhete: O fórum existe desde 4 de Janeiro de 2011 e nesta data temos 55 inscritos, mas sei de fonte fidedigna que somos visitados e lidos por muito mais do que os registados.

VEPT: Queres deixar algum conselho a quem tem ainda dúvidas se deve ou não comprar um carro eléctrico?

Rui Ramalhete: sim deixo alguns conselho básicos:

1º – O Leaf não é para andar na Auto-estrada a não ser que seja para viagens curtas leia-se 60 kms;

2º – Devem habituar-se a conduzir o Leaf em ECO pois tem a vantagem de maximizar a autonomia (o que não quer dizer que uma vez por outra e por uma questão de puro divertimento não o coloquem em drive em “queimem” alguma borracha dos pneus só pelo gozo único de testar o arranque potente que o mesmo tem que vos faz ter o já famoso sorriso LEAF);

3º – Nesta altura em que ainda faltam algumas infra-estruturas, planeiem as vossas viagens com antecipação e prevejam o pior (leia-se, o posto da Mobi-e pode estar desligado);

4º – Façam bem as contas em termos financeiros (eu comparei o Leaf com um Golf Bluemotion Hightrend todo equipado e não tive dúvidas de que com o tempo irei ter uma vantagem superior em possuir o Leaf, uma vez que não se paga IUC durante 5 anos, a manutenção é muito menor e o conforto é incomparável pela ausência de ruído e trepidações).

5º – Já sabem que neste momento vai ser difícil fazer viagens Lisboa – Algarve por falta de infra-estruturas instaladas.

Obrigado Rui, resta-me agradecer-te este excelente contributo sobre a tua experiência com os carros eléctricos e em especial com o Nissan Leaf. Sem dúvida que é importante para todos os leitores do site. Se tem um Nissan Leaf fica também o convite para visitar o fórum que o Rui Ramalhete implementou.

4 Responses to Conversa com Rui Ramalhete

  1. Boa tarde!! Queria saber se o carro eléctrico usa-se com carta de condução ou nao?? Obrigada
  2. VEpt says:
    claro que sim.
  3. Strat says:
    Carta de condução para conduzir um carro?! Eh pá… Se calhar dá jeito.
    (E eu a pensar que a minha dúvida sobre os carregamentos à chuva era difícil de digerir.)
  4. Sérgio Amaro says:
    Sabem dizer se novas baterias, de maior capacidade, podem ser aplicadas em modelos mais antigos (ex: baterias de 30 kWh utilizadas no novo Leaf podem ser aplicadas num Nissan Leaf mais antigo cujas baterias originais eram de apenas 24 kWh)?

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