Conversa com Hélder Pereira

Publicado em 2 de Fevereiro de 2010 |

Hoje publicamos uma conversa com o Hélder Pereira, que desde o ano passado possui uma scooter eléctrica, e pelos vistos, não a troca por nada… Nesta conversa o Hélder partilha algumas das suas experiências, desmistifica o problema do investimento nos veículos eléctricos e deixa também algumas sugestões para os que têm responsabilidades nesta área.

VEpt: Hélder, qual foi a motivação para a compra de uma scooter eléctrica?

Hélder Pereira: Pensando bem, resumem-se a três. Ecologia, Economia e Tempo. Primeiro porque assim que a EDP5D Verde me alterar o contador passo a garantir 0g (zero) de CO2 nas minhas deslocações. Em segundo lugar para dar uma ideia, pagava de passe cerca de 70€ mensais, em electricidade devo gastar num ano, para essa mesma deslocação cerca de 85€. Mais o seguro anual de 49€, em 2 meses de passe fica pago o gasto do ano. Como a manutenção é quase nula dá para ter ideia do que poupo, estritamente no sentido económico porque o resto para mim não tem preço. E o tempo que se reduziu dramaticamente. Onde antigamente demorava em média 1h:45m de porta a porta, agora faço facilmente e sem abusar em 45m num dia de chuva!

VEpt: Já tinha tido algum veículo de duas rodas anteriormente?

Hélder Pereira: Não. Há cerca de uns 15 anos andei durante uns dias com uma Honda NSR 125 R. Mas muito pouca coisa. Experiência era virtualmente zero.

VEpt: Que tipo de dificuldades iniciais teve?

Hélder Pereira: Sinceramente, quase nenhuma. É preciso ter um pouco de consciência, e se a experiência não é muita, não se arrisca, toma-se muito cuidado. Principalmente com dias de chuva. De resto, é andar que a experiência surge. Hoje sinto-me bem diferente de quando comecei em Novembro de 2009. Já não há fila de trânsito que me pare 🙂

VEpt: Actualmente, ainda considera que foi um bom investimento?

Hélder Pereira: Sem a menor dúvida! As motivações iniciais foram superadas. Como exemplo, posso lhe dizer que consigo tomar o pequeno-almoço junto com a minha família e chego a tempo de ver as minhas filhas na natação. Antigamente isso era impossível! E isto não tem preço.

Aqui não posso deixar de referir que como “pioneiro” nestas andanças, encontro alguns percalços que considero normais e que irão fazer com que quem vier a seguir não os encontre. Digamos que ando a desbravar caminho para outros que se sigam.

Não posso deixar de frisar o excelente acompanhamento pós-venda que a empresa SW Energy, a quem comprei o meu veículo, me tem prestado. Sempre disponíveis, sempre incansáveis mas acima de tudo sempre com profissionalismo e competência.

VEpt: Qual é a utilização diária que faz da scooter, nomeadamente a distância e o tipo de percurso?

Hélder Pereira: São cerca de 60Km. Faço Sintra-Lisboa-Sintra e o percurso compõe-se de 35Km de IC19 (para quem não conhece, é quase como uma auto-estrada com 3 faixas) e o resto é o que podemos considerar cidade.

VEpt: O carregamento é feito apenas em casa, ou tem que recorrer a outros pontos de carregamento?

Hélder Pereira: Para manter as baterias no seu estado óptimo, carrego no local de trabalho. A capacidade do meu pack de baterias seria mesmo á justa para a distância em causa, mas existem packs com capacidade superior que permitem fazer o percurso que eu faço sem necessitar de carregamentos intermédios. No entanto e dado a abertura e curiosidade das pessoas relativamente aos veículos eléctricos, tenho um “contrato” com um quiosque de revistas onde ponho a mota a carregar durante o horário de trabalho.

VEpt: Quais são os principais problemas de utilização de um tipo de veículo destes?

Hélder Pereira: Penso que será a falta de locais de carregamento. Temos que conseguir quebrar este ciclo vicioso e não me estou a referir só ao Governo (que por sinal continua em falta já que tinha prometido 100 postos até ao final de 2009 e só temos os 7 que a EDP instalou para o dia da cidade sem carros há uns anos atrás…). Nós mesmos devemos levar a coisa adiante. Como? Por exemplo, eu faço parte da Associação Nova Energia que tem lutado muito para alterar este estado de coisas. A Associação tem alertado centros comerciais, lojas, bares, etc. para que permitam o carregamento dos veículos eléctricos.

Informando e explicando que o custo é irrisório e que não precisam de nada de especial, basta uma ficha. Repare, durante o mês de Dezembro (não foi completo, mas apontamos para uns 10/12 dias de cargas) a minha “conta” no quiosque onde carrego foi de… 2,04€! Se for um bar ou um café, qualquer despesa que a pessoa faça, cobre o custo da carga. A Associação tem um mapa na Internet com os pontos de carga que vamos tendo conhecimento, e com isso há lugar também a publicidade desses negócios.

VEpt: Qual é a grande vantagem dos veículos eléctricos para si?

Hélder Pereira: Bem, penso que será a ambiental. A económica também é muito importante. E também o facto que me dá independência dos grandes interesses económicos. Repare eu não preciso de ninguém para gerar electricidade e ainda por cima consigo fazê-lo de forma ecológica. Consegue me mostrar como é que um indivíduo consegue extrair e refinar petróleo por ele mesmo? Isto leva-me também ao hidrogénio. Porque se investe tanto no hidrogénio? Porque, até hoje, é virtualmente impossível um indivíduo gerar e armazenar hidrogénio independentemente. Se tivessem investido metade, só metade, do dinheiro que investem no desenvolvimento do hidrogénio, em desenvolvimento das baterias, aquilo que mais assusta as pessoas, que é a autonomia, já estaria resolvido faz muito tempo… Só que a electricidade traz com ela muita independência… Bom mas isso dava pano para mangas.

VEpt: E o principal defeito?

Hélder Pereira: Não encontro um grande defeito no veículo eléctrico em si, conduz-se muito bem, é extremamente silencioso, tem uma capacidade de aceleração fantástica, é ecológico, mas encontro sim na falta de infra-estrutura de carregamento. Principalmente carregamentos rápidos. Repare, mesmo com as baterias actuais, se tivessem um posto de carregamento que lhe desse 80% ou 90% da sua carga em 10 ou 15 minutos (para um carro, uma mota seria em bem menos tempo), continuava a achar um problema só fazer 160Km ou 200Km com uma carga? 10 ou 15 minutos já nós paramos numa bomba para abastecer gasolina…

VEpt: Qual a opinião de amigos e familiares relativamente a este tipo de veículos? Mostram curiosidade?

Hélder Pereira: A curiosidade é enorme! A opinião é basicamente a mesma, sempre a pergunta da autonomia e da velocidade. Mas após 3 minutos de explicação a coisa passa logo para espanto e surpresa. E depois ficam sempre a matutar quando chego à parte dos custos, porque é sempre aí que a maior parte das pessoas pensa e sente as situações e toma decisões.

VEpt: Tens um blog relacionado com o teu veículo eléctrico. O que te motivou a criá-lo e a actualizar frequentemente?

Hélder Pereira: Acima de tudo mostrar às pessoas que um veículo eléctrico é uma hipótese totalmente viável e que se pode tomar essa opção sem prescindir de nada, ou ,melhor prescinde-se das bombas de gasolina. 🙂

Mostrar a realidade do dia-a-dia de um veículo eléctrico e não de um veiculo que só anda um bocadinho ou em condições controladas. Eu ando todos os dias, com chuva, sol, frio, calor, etc.

É uma mudança como outra qualquer e sempre podem fazer como eu, que faço adeus a todas as bombas de gasolina que passo 🙂

VEpt: Considera que a oferta existente de scooters eléctricas em Portugal é suficiente?

Hélder Pereira: No campo específico das scooter sim, está bem coberto. Em termos de motas falta muita coisa, falta opção pelos outros tipos de motas existentes.

Em termo de carros é uma vergonha… resta-me lembrar que em 1906 vendiam-se mais carros eléctricos que carros a combustão interna. Por isso desenganem-se as pessoas que pensam que o veículo eléctrico é uma tecnologia nova 🙂

VEpt: Sugestões para os governantes?

Hélder Pereira: Pensem bem os assuntos. Não tomem decisões só por “estar na moda”. Analisem o mercado e perguntem a quem já apostou o seu dinheiro neste mercado o que sentem falta, as dificuldades, etc. Fariam um melhor trabalho do que tomar medidas avulso.

Com isto que referi já era uma enorme mudança para melhor… na minha opinião

VEpt: Sugestões para quem está céptico em relação aos VE?

Hélder Pereira: Sinceramente, experimentem! É uma condução excelente.
E quanto à autonomia, pensem em quantos quilómetros REALMENTE fazem nas vossas deslocações. Existem estudos, da UE, que colocam mais de 80% das pessoas a precisar de apenas 40Km ou menos, por dia, em deslocação nos seus veículos. Para isso qualquer veículo eléctrico hoje já supera em muito essa necessidade. Precisam pontualmente de mais quilómetros? Se o Governo (ou outros) não tiverem ainda instalado uma rede de carregamentos rápidos, o dinheiro que se economiza, dá para alugar um carro para essas alturas. Lembrem-se que a única mudança que têm que fazer é que quando param o veículo, desde que haja uma ficha, é só ligar e pronto, mas nem isso é obrigatório, basta fazer isso em casa. É o único comportamento a mudar, mas as vantagens são enormes, para si, para o ambiente, para todos.

Gostaria de fazer um pequeno aparte… Existe uma questão que também surge com alguma frequência quando me abordam para questionar sobre o veículo eléctrico que possuo. A questão de “se tem retorno financeiro”. É uma ideia geral, comum mesmo, que investir um alguma coisa ecológica tem que trazer retorno financeiro. Queres por um sistema de AQS, tem retorno financeiro? Queres por painéis fotovoltaicos, tem retorno financeiro?

Gostaria de por aqui a coisa um pouco em perspectiva, quando compram um carro e decidem comprar um BMW, fazem-no porquê? Onde está o retorno financeiro? Um Fiat não os transporta como outro qualquer e de forma bem mais barata que um BMW? Porque compram uma TV LCD em vez de uma TV de tubos de raios catódicos? Fizeram as contas a quantas horas passam a ver TV e os consumos de ambos os modelos e verificaram em quanto tempo têm o retorno financeiro dessa opção?

Isto só para afirmar que uma opção por um veículo deste tipo não tem que ter retorno financeiro, é uma opção como outra qualquer. Eu até falo descansado da vida porque o meu retorno financeiro é rápido, até pelas contas que ali podem fazer com os dados descritos mais atrás na entrevista. Mas o veículo eléctrico trouxe-me coisas que não têm preço, e essas sim, são, para mim, as importantes.

Muito obrigado por esta oportunidade de mostrar a “outra face” deste novo mundo.

VEpt: Obrigado Hélder e fica aqui mais uma vez o convite a todos para visitarem o blog do Hélder em : o meu veículo eléctrico

3 Responses to Conversa com Hélder Pereira

  1. Serges says:
    É Assim mesmo, desmistifica os vários mitos que atribuem aos VE’s… Em 3 anos de motas eléctricas aparece com cada pergunta eh eh eh!
  2. Joliveira says:
    Parabéns pela entrevista. Boa iniciativa.
  3. sara antónio says:
    Gostei muito da entrevista. Vivo na Venda do Pinheiro, e pago de passe mensalmente a quantia de 97€ Numa altura em que cada vez mais esticamos o nosso dinheiro, pensei desde há muito tempo comprar 1 carro electrico. Para além da vantagem ambiental, que é enorme, tem tb. a vantagem de baixar susbstancialmente os custos em mobilidade. Inscrevi-me para a compra twizi renault, só me custa mesmo a mensalidade a que fico obrigada a pagar pela bateria do carro 45€. Ora sendo o carro de minha propriedade acho este pagamento (mais uma forma encapotada para as empresas ganherem dinheiro e o estado tb)um prefeito “roubo” e abuso. Entretanto pensei na compra da “Lambreta” electrica. A única razão pela qual ainda não a comprei tem a ver com o facto de ser mulher e ter um emprego em que me obriga a uma certa certa forma de vestir, que se tornaria dificil suportar em dias de chuva forte. Mas deixo aqui o repto: se algum utilizador souber a melhor forma de combater esta situação, ficarei muito grata. Quero e tenho mesmo de reduzir o custo mensal das minhas deslocações para Lisboa. Um bem-haja a todos os condutores ecológicos.

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